30
Jun 2014
O Dia Que Não Morri
Constanza, Cotidiano

Eu não estava nem aí pra Copa. Nunca gostei muito de futebol, não para acompanhar e ter time sabe? Eu simpatizo com o Cruzeiro (aqui de MG) mas sequer sei o nome de algum jogador.

Só que teve Copa, ainda tá “tendo” e o clima acabou me contagiando. A única vez que torço no futebol, é para o Chile e de 4 em 4 anos. E torço com medo, pois não temos muita tradição no futebol mas é impossível não se emocionar com as tímidas camisetas vermelhas, a torcida devota e o hino cantado com todo amor.

Ok, temos copa e eu não tinha ingresso. Aliás, só tinha um, para Inglaterra e Costa Rica apenas para falar que fui num jogo. O Chile tinha pegado uma chave super complicada e a chance de passar para as oitavas era mínima, para não falar nula, quando de repente, mandamos a Espanha de volta pra casa. Maravilha, só que não. Começava meu desespero. O próximo jogo seria Chile e Brasil, e o pior, no Mineirão, aqui do meu lado!!! Eu quis morrer várias vezes: de arrependimento por não ter comprado ingressos para BH, de ser uma experiência que não iria se repetir tão cedo, de não ter acreditado no meu país e claro, de pegar o Brasil, justo agora. Não podia ser mais pra frente não?

Fiquei BEM desesperada. Recorri a todo mundo que poderia me ajudar a conseguir um ingresso já que pelo site da Fifa estava praticamente impossível comprar. Os cambistas surtaram, pediam 2, 3 mil dólares por uma Categoria 4 (a mais barata e que custava 110 reais no site) e sério que pensei: até 1500 reais eu pago, mesmo correndo o risco de perder o dinheiro em um ingresso falsificado. Precisava ir.

Muita gente tentou me socorrer (e sou eterna agradecida): me mandaram contatos de pessoas que estavam vendendo, mail com dicas para comprar na Fifa, contatos de patrocinadores para eu tentar alguma parceria mas… nada. Nessas horas a gente tenta de tudo. Apesar de toda a ajuda de vocês e dos meus amigos, nenhuma esperança.

E aquele pensamento me atormentando: Brasil e Chile numa Copa do mundo, em Belo Horizonte. Quando isso vai acontecer novamente? Provavelmente em alguns séculos. E isso que começo do ano eu e meu namo brincamos com essa possibilidade, mas a resposta sempre era: Chile jamais vai ganhar da Espanha ou Holanda… Claro que não passa. E passou.

Entrei em vários grupos de ingressos para a Copa no Facebook e o desespero era geral. Tava ferrada, eu era mais uma entre milhares de pessoas com o mesmo desejo. Até que li o pessoal comentando (nos grupos) que o horário de ouro para tentar no site da Fifa era as 5 da manhã e atualizar o site de 5 em 5 segundos. Montamos vigília durante 3 dias, acordando de madrugada e sem desgrudar os olhos da tela do computador, até que na quinta feira, quando eu já estava desistindo e achando que jamais eu conseguiria, abriu uma venda de ingresso e não me perguntem como, mas cliquei o mais rápido que podia, digitei o tal código de letras embaralhadas (nem lembro dessa parte) e os ingressos foram para o carrinho! Tremi, mas tremi TANTO que no desespero não achava sequer meu cartão de crédito. Queria chorar, ligar pro namorado com medo de fazer algo errado, estava esperando a tela travar ou aparecer novamente a mensagem em vermelho falando que tinha dado um erro qualquer, mas não, a tela verde ainda estava lá esperando o pagamento. Consegui pagar e veio a confirmação da compra. SIM, EU IRIA VER UM CHILE E BRASIL NO MINEIRÃO NA COPA DO MUNDO!

Aquela vontade de gritar, ligar pra minha mãe se resumiu a um #chupacambista no Facebook tamanha minha revolta com os valores que estavam cobrando. E vários minutos comemorando incrédula madrugada afora. Era pra ser, eu TINHA que ir nesse jogo!

Depois foi só ansiedade, sentimentos encontrados e conflitos internos. Claro que torceria para meu país, não tem como não torcer, ainda mais com uma campanha tão linda que estavam fazendo. Mas ao mesmo tempo não queria que o Brasil perdesse, a Copa perderia toda a graça e sendo bem realista, o Brasil teria mais chances de chegar até a final. A única coisa que eu pedia era que o Chile não perdesse de goleada.

Vamos pro campo.

A emoção de ir a um jogo da Copa de dois países que “te pertencem” é a coisa mais difícil do mundo! Tocava sambinha, eu sambava, gritavam Chi Chi Chi, eu respondia Le Le Le. É festa, é jogo, é o mundo olhando pra gente!

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O hino do Chile estava na ponta da língua e foi muito emocionante esse momento, apesar de um barulhinho chato que alguns torcedores brasileiros fizeram, isso só me fez cantar ainda mais alto e nada tirou a beleza de ouvir um dos meus hinos na voz emocionada de tantas pessoas e com tanta paixão. Em seguida, me juntei aos brasileiros e também cantei o seu hino com toda vontade. Inteirinho e sem errar. Depois de tanto sufoco, persistência e vontade, eu tava lá no Mineirão vendo tudo de pertinho.

O jogo… bom, acho que nem preciso contar né? Foi teste para cardíaco (quase morri várias vezes) e disputa por pênaltis é a coisa mais sofrida, tensa e nervosa do mundo. Apesar do resultado desfavorável para nós chilenos, foi lindo. E me orgulho a cada instante de la Roja, pela força, garra e fé, fé que nem eu tinha neles e me calaram a boca. E mesmo usando azul, branco e vermelho no meio de uma torcida verde e amarela, bateram palmas para mim quando cantei meu hino e me abraçaram quando o jogo acabou. Tudo junto e misturado. É Copa. E eu estava lá.

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Não poderia ter sido mais perfeito e tive o resultado ideal: minha primeira casa mostrando que é forte e a segunda casa continuando com o show. Ninguém saiu por baixo, foi lindo do início ao fim.

Gracias, Chile. E continue Brasil!